Esse é tema de uma das minhas séries favoritas de ficção científica, que é o Ciclo Hainish de Ursula K. Le Guin — alguns são clássicos e, se você consome livros do gênero, você certamente conhece A Mão Esquerda da Escuridão (1969), Os Despossuídos (1974), O Mundo de Rocannon (1966), O Planeta do Exílio (1966) e A Cidade das Ilusões (1967).
Apesar de não existir uma ordem que você precisa ler, e cada livro funcionar independentemente um do outro, o background é comum...
Há muito tempo atrás, existia um planeta chamado Hain... E seus habitantes eram hainitas. Eles eram humanóides, e tinham tecnologia o suficiente para realizar viagens interplanetárias. Os hainitas também passaram a colonizar esses planetas e povoá-los a partir de engenharia genética... Eles modificavam o DNA hainita para se adaptar às condições de cada planeta, e aí, uma vez que estivessem lá, a seleção natural faria o resto. Aqui na Terra eles teriam produzido várias espécies como o Homo sapiens, o Homo neanderthalensis, o Homo erectus, o Homo rudolfensis, e etc. E aí quem prevaleceu foi o Homo sapiens.
Eventualmente, aconteceu alguma crise interna em Hain que não sabemos o que foi que acabou interrompendo tais viagens. A partir de agora, cada planeta perdia contato com a metrópole e também perdia contato entre si... Cada civilização humana se desenvolveu independentemente, acreditando ser única no universo. E aí, quando Hain consegue se restabilizar e retomar as viagens interplanetárias, ela consegue restabelecer contato com suas ex-colônias. E existem até projetos de união política, como o Ekumen ou a Liga de Todos os Mundos.
Cada livro é um laboratório... Nós acompanhamos vários planetas, não apenas a Terra, com suas próprias particularidades, incluindo dinâmicas sociais e de poder e sistemas políticos e econômicos. Em A Mão Esquerda da Escuridão por exemplo, que é considerado um dos três maiores clássicos do sci-fi, nós conhecemos um planeta chamado Gethen (que na língua nativa significa “inverno”) onde os indivíduos não apresentam dimorfismo sexual. E em Os Despossuídos nós acompanhamos dois planetas-gêmeos chamados Urras e Anarres que seguem modelos políticos distintos... Um deles é uma clara alusão à Guerra Fria, já que é um planeta polarizado por duas potências e extremamente desigual; à medida que o outro é completamente anarquista e a miséria é coletiva.