Eu já havia feito uma pergunta no antigo vermelhinho, mas como falamos sobre a proposta que está sendo pautada na Coreia do Sul que dá permissão para o Estado dissolver instituições religiosas e o debate sobre delimitação entre religião e poder público, acho conveniente falar sobre como funciona o reconhecimento religioso no Estado de Israel... Ainda mais sendo Israel um país ao qual evangélicos brasileiros nutrem uma paixão.
Como é sabido, o Estado de Israel não é um país neutro a respeito de religião... Nem é laico aos moldes ocidentais. Apesar do vídeo das senhoras bolsonaristas confundirem que Israel é um país cristão, Israel é formalmente um Estado judeu. A religião oficial do país é o judaísmo... Apenas a população judaica tem direito a autodeterminação, a tradição judaica integra a vida pública, hebraico é a única língua oficial, e a comunidade judaica é prioridade. O contexto que Israel foi fundado foi esse... O motivo de Israel existir é para proteger a identidade do povo judeu, ponto. Eles nunca assumiram o compromisso de proteger cristãos, muçulmanos ou qualquer outra religião e/ou grupo étnico como árabes.
Por causa disso, eles seguem um sistema de reconhecimento de comunidades religiosas oficiais...
No antigo Império Otomano existiam os millets, que eram comunidades religiosas que tinham direito a autogoverno sobre assuntos pessoais, educação e impostos, sob a autoridade final do Sultão. Cada millet tinha autonomia comunitária e podia gerenciar suas próprias leis familiares, tribunais, escolas e hospitais, além de terem suas próprias lideranças religiosas reconhecidas que faziam intermédio entre a comunidade e o poder turco. Quando o Mandato Britânico da Palestina assume, ele preserva esse modelo... E aí, quando o Estado de Israel é oficialmente fundado em 1948, eles também mantém o sistema millet. Ou seja, é um modelo que existe há muito tempo, séculos... Desde antes do Estado sionista.
Nesse sentido, somente dez igrejas cristãs são oficialmente reconhecidas: Igreja Católica Apostólica Romana; Igreja Católica Siríaca; Igreja Católica Armênia; Igreja Católica Caldeia; Igreja Siríaca Maronita de Antioquia; Igreja Greco-Católica Melquita; Igreja Ortodoxa Grega; Igreja Siríaca Ortodoxa de Antioquia; Igreja Ortodoxa Armênia; e Igreja Evangélica Episcopal.
Essas dez comunidades cristãs são reconhecidas porque têm presença histórica e contínua na Palestina anterior à fundação do Estado judeu em 1948... Elas têm tribunais eclesiásticos; proteção patrimonial (podem administrar escolas, hospitais, cemitérios, locais sagrados e etc); integram o conselho de chefes de comunidades cristãs; participam de decisões oficiais que envolvem turismo religioso, patrimônio arqueológico e negociação com o Ministério do Interior de Israel; os líderes são reconhecidos pelo Estado; e etc. Por exemplo, Israel não faz casamentos civis em cartório... Precisa ser numa sinagoga, mesquita ou alguma dessas dez igrejas, respeitando as regras de cada denominação. São igrejas que possuem respeito institucional.
E aí vamos às igrejas protestantes...
As igrejas evangélicas brasileiras, que são fundadas por missionários brasileiros, têm sede no Brasil e líderes brasileiros... E aí pode-se mencionar a Igreja Universal do Reino de Deus, Igreja Mundial do Poder de Deus, Igreja Internacional da Graça de Deus, Igreja Pentecostal Deus é Amor, Igreja Assembleia de Deus, Igreja Batista da Lagoinha, Bola de Neve Church, We Are Reino, Igreja Templo de Milagres, Sete Church, Igreja Verbo da Vida, Campo de Anatote, entre várias outras... Não têm reconhecimento oficial. A maioria delas foi fundada após 1948... Com exceção da Assembleia de Deus fundada em 1911 mas, assim como todas as outras, tem o problema de não possuírem continuidade histórica na Palestina. Nenhuma delas é reconhecida. Nenhuma... Zero absoluto. Sem exceção.
O máximo que essas igrejas podem fazer é alugar salas para transformar em templo, realizar cultos internos e discretos voltados para turistas, e receber caravanas brasileiras — Israel tolera essas caravanas porque elas geram receita e atividade econômica, ainda mais brasileiros que são o maior grupo de turistas atrás dos americanos. Elas só existem enquanto entidades culturais, privadas e/ou administrativas, mas sem reconhecimento institucional. Proselitismo então, nem pensar... Israel proíbe tentar converter judeus mediante coerção, ameaça e/ou promessa. Se um pastor evangélico tentar fazer em Israel o que faz no Brasil, é rechaçado pela própria população... E as autoridades israelenses não se importam, porque ele estará violando uma lei explícita pela própria conta e risco. Temos registros de pastores que tentaram pregar no Muro das Lamentações, local sagrado para os judeus, e foram agredidos. Israel não respeita essas denominações. E aí é necessário voltar ao contexto histórico... O sionismo enquanto movimento político surgiu no Leste Europeu do século XIX dentro de um contexto de perseguições e/ou pogroms contra judeus que viviam em países cristãos, com direito a leis de segregação, conversões forçadas e expulsões em massa, como as que aconteceram na Península Ibérica durante a Inquisição do século XV. De novo, Israel existe para proteger a identidade judaica, e tentar converter judeus a outra religião é visto como violação dessa identidade pelos sionistas.
Algumas, como a IURD do Edir Macêdo e a Assembleia de Deus, até tentaram entrar com pedidos oficiais para integrar-se à lista de comunidades religiosas... Mas desde 1970 que Israel os congelou e não recebe mais, com a intenção de manter o status quo, não conflitar com os interesses das comunidades judaicas ortodoxas e desequilibrar a balança religiosa que o país possui. Eles não querem o modelo de culto brasileiro baseado em escândalo.
E as denominações da tradição reformada europeia? Igrejas protestantes históricas como luteranos, calvinistas, batistas e metodistas também não estão na lista... Somente anglicanos. Não é por qualidade teológica e/ou institucional, é só porque essas denominações não fazem parte da tradição cristã antiga do Mediterrâneo Oriental. A Igreja Evangélica Episcopal, vinculada à Igreja Anglicana mas com a própria representação em Jerusalém, é exceção porque o Império Britânico teve a tutela da Palestina entre 1920 e 1948, aí ela se instalou por lá. É uma lista de quem chegou primeiro... Quem já estava lá, ficou; e quem não entrou, não entra mais.
Diante disso tudo, o que podemos concluir sobre o modelo de reconhecimento jurídico religioso de Israel? É um movimento que restringe a liberdade religiosa ou é uma política legítima para proteger a identidade judaica da população e prevenir formação de seitas? Deixe o que você acha e se sua igreja é reconhecida ou não por Israel.